sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A guerra entre os portugueses e os tapuias

RHBN 01/07/2009
Quem tem medo dos bárbaros?
Na tentativa de povoar o sertão, os portugueses meteram-se numa longa guerra contra um temível inimigo: os índios tapuias
Soraya Geronazzo

Se existe uma guerra justa, há de ser aquela travada contra o próprio demônio. E era uma guerra assim que os portugueses acreditavam estar lutando nos sertões brasileiros.

O demônio, no caso, eram os índios tapuias. Divididos em várias etnias, espalhados pelo Nordeste da Colônia, numa enorme faixa de terra que ia da Bahia ao Ceará, eles ganharam a fama de bárbaros já no momento em que foram assim batizados. “Tapuias”, para os tupis, eram todos os não tupis. Diferiam destes não só pela língua, mas por habitarem o sertão, o interior. Como os colonizadores se instalaram primeiro no litoral, foi com os tupis que se comunicaram e se misturaram antes. Por mais que também se dividissem em vários povos, alguns deles agressivos, os tupis eram os índios “conhecidos”. Já os tapuias eram “os outros”. E quando chegou a hora de enfrentá-los, sua fama se confirmou.

Em 1708, o governador de Pernambuco, Manoel de Sousa Tavares, teve mais uma prova de como era terrível guerrear contra eles. Em carta ao Conselho Ultramarino – órgão do governo responsável pelas colônias portuguesas –, relatou que os tapuias, não satisfeitos em destruir fazendas e matar seus moradores, invadir igrejas e derrubar as imagens sacras, eram capazes de atos cruéis e desumanos, como fizeram com o padre Amaro Barbosa, de quem arrancaram o coração!

Desde o século anterior, o reino investia na ocupação do interior brasileiro. A região passou a despertar interesse depois do fim da União Ibérica (1640) e da expulsão dos holandeses do Nordeste (1654). Ao conquistar autonomia em relação à Espanha e ver-se livre dos invasores na Colônia, Portugal voltou-se para uma área tremendamente promissora: o sertão nordestino, que, com a abundância de terras e a facilidade de adquiri-las, passou a ser ocupado, de maneira intensiva, principalmente pelos “curraleiros”, criadores de gado. A intenção era resolver a questão do abastecimento interno (com o fornecimento de carne), evitar novos conflitos com invasores estrangeiros e impor uma ordenada distribuição de terras.

O problema é que, à medida que os colonos avançavam, passaram a enfrentar a renhida resistência dos grupos indígenas. Começou, então, uma série de conflitos armados que duraria mais de meio século e ficou conhecida como Guerra dos Bárbaros.

Tratava-se de uma “guerra justa”. Este conceito, baseado no direito de guerra medieval, já fora adotado pelos portugueses antes da descoberta da América, na época das lutas contra os muçulmanos. No caso brasileiro, o que justificou essa interpretação foi a hostilidade dos índios, que reagiam com violência ao avanço da colonização. Seus levantes eram considerados atos de selvageria, demonstrando sua natureza belicosa. Uma vez decretada a guerra justa, os colonos passavam a ter o direito de empreender a luta armada contra todas as nações indígenas que se recusassem à conversão, impedissem a propagação da fé católica ou quebrassem pactos de paz feitos com os portugueses.

No caso dos tapuias, havia um agravante: muitos deles adotavam a abominável prática do canibalismo. Suas almas precisavam ser salvas. Uma vez investidos como guerreiros, os colonizadores estariam a serviço de Deus, propagando a fé e defendendo a paz e a segurança daqueles que punham em prática o rendimento da terra, e, com isso, a civilização.

A princípio, os índios levaram a melhor. Eram mais numerosos e conheciam como ninguém os áridos solos do sertão. Além disso, adotavam táticas estranhas aos militares europeus, deixando as autoridades completamente aturdidas. “A guerra destes Bárbaros é irregular e diversa das mais nações porque não formam exércitos nem apresentam batalhas na campanha, antes são de salto as suas investidas, ora em uma, ora em outra parte, já juntos, já divididos”, descreveu em 1688 o arcebispo governador do Brasil, frei Manuel da Ressurreição.

Para exaurir as tropas dos brancos, costumavam percorrer caminhos e lugares em que era difícil a locomoção, onde geralmente havia escassez de água e de alimentos. Ao contrário dos portugueses, eles não precisavam carregar pesados mantimentos, já que estavam habituados a se alimentar de frutos, mel, caça e pesca. “Não foi possível alcançá-los por se espalharem por um monte de penedia [rochedos] com que se perdeu a trilha e por muitos dias não houve notícia deles”, queixou-se o capitão Afonso de Albertim, da Ribeira do Rio Açu, na capitania do Rio Grande.

Nem mesmo os tradicionais códigos de guerra funcionavam com os “selvagens”. Um artifício muito usado por eles era, no momento em que se sentiam encurralados, procurar abrigo e pedir um acordo de paz às autoridades locais – para depois voltarem a fugir para o sertão. Isso serviu de lição para as autoridades: desconfie da paz estabelecida com os tapuias.

Investidas missionárias também surtiam pouco efeito. Os índios tentavam impedir a aproximação dos jesuítas até junto às outras nações. Impossibilitavam qualquer tentativa de manter nativos submetidos ao controle colonial. Na hora de guerrear, era comum ver povos distintos se juntando e combatendo lado a lado contra os brancos.

Essas estratégias eram consideradas “ilegítimas” pelos colonizadores, mas estava óbvio que a guerra dos sertões exigia mudanças na estratégia portuguesa. E a solução foi adotar algumas das táticas dos “bárbaros”. As campanhas tinham que se basear em emboscadas realizadas por pequenos grupos de homens com extrema mobilidade e grande capacidade de ataques de surpresa. Para isso, passaram a contar com a ajuda de sertanistas mercenários vindos da capitania de São Vicente (os chamados “paulistas”).

Os portugueses copiavam os índios, mas estes também tinham herdado técnicas militares européias, do tempo em que lutaram em ambos os lados durante as invasões holandesas. Aprenderam a criar e usar cavalos e a manejar armas de fogo. Muitas nações valiam-se dos contatos com piratas estrangeiros para obter armas e munição. Em julho de 1694, Manuel Álvares de Morais Navarro, capitão de uma tropa de paulistas, escreveu carta ao rei afirmando que os tapuias “faziam pazes com qualquer navio estrangeiro que viera àquela costa, pois tanto suspiram pelos holandeses, e é certo ser qualquer inimigo lhes desse armas de fogo, só eles bastavam para nos conquistarem por terra pois são tantos como as folhas, e no valor não lhes excedemos mais que na desigualdade das armas”.

Os estragos causados pelos levantes indígenas prejudicaram a exploração das terras. A região, que inicialmente se apresentou como grande possibilidade para a recuperação da economia do Estado português, tornou-se fonte de despesas para a Fazenda Real, ameaçando os planos que a Coroa tinha para o desenvolvimento de algumas capitanias, como a do Rio Grande (atual Rio Grande do Norte), e abrindo brechas na defesa dos territórios das vizinhas Ceará, Piauí, Paraíba e Pernambuco.

A vantagem dos nativos criou um clima de pânico geral nos colonos, que ameaçavam abandonar a terra. O comportamento “selvagem” dos inimigos agravava a sensação de medo. “Suas avançadas são de súbito, dando urros que fazem tremer a terra para meterem terror e espanto e logo se espalham e se metem detrás das árvores, fazendo momos [gestos grotescos] como bugios [macacos], que sucede às vezes meterem-lhe duas e três armas e rara vez se acerta o tiro pelo jeito que fazem com o corpo”, relatou Gregório Varela de Berredo Pereira, que era capitão de infantaria, guarda da residência do governador de Pernambuco.

Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele. A velha lição foi fundamental para os portugueses mudarem o rumo da guerra. Atrair tapuias para lutar a seu lado era a única forma de conseguirem equilíbrio no número de combatentes, sem falar em seu talento para as táticas de guerrilha na mata e em sua aptidão para a sobrevivência naquele meio inóspito.

A proposta também tinha vantagens para os tapuias. Aliados aos luso-brasileiros, podiam combater seus inimigos nas lutas intertribais. Interessavam-se também pela possibilidade de receberem terras na forma de sesmaria, pois no fim dos conflitos era comum a distribuição de mercês desse tipo. Muitos índios tornavam-se, assim, vassalos da Coroa portuguesa.

Em 1690, frei Manuel da Ressurreição, que ocupava interinamente o governo-geral do Brasil, decidiu adotar mudanças radicais na estratégia de guerra, para finalmente dar cabo dos tapuias nas capitanias do Norte. As ações ficaram a cargo de um único capitão, Matias Cardoso de Almeida, que recebeu patente de mestre de campo e governador da guerra. A ordem era degolar, ou no mínimo escravizar, quantos tapuias fosse possível, destruindo suas aldeias.

Ainda levaria algum tempo, mas os rumos da guerra estavam definidos. Depois de uma das mais prolongadas resistências indígenas do período colonial, aqueles povos seriam completamente exterminados. Seja pela morte durante o conflito, seja pela escravidão ou pela completa transformação dos tapuias em caboclos. Os que restaram foram paulatinamente migrando para a Região Norte do Brasil.

Para os soldados da guerra justa, o demônio foi derrotado. Mas para os tapuias, o inferno eram os outros.

Soraya Geronazzo Araújo é professora de História Moderna e do Brasil na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) e autora da dissertação “O Muro do Demônio: economia e cultura na Guerra dos Bárbaros no nordeste colonial do Brasil – séculos XVII e XVIII” (UFC, 2007).

Saiba Mais - Bibliografia:

LOPES, Fátima Martins. Missões religiosas: índios, colonos e missionários na colonização da Capitania do Rio Grande. Mossoró: FVR/IHGRN, 2003.

PIRES, Maria Idalina da Cruz. Guerra dos Bárbaros: resistência indígena e conflito no Nordeste Colonial. Recife: Fundap/CEP, 1990.

POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e “Tapuia” no Brasil Colonial. Bauru: Edusc, 2003.

PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec/ Editora da USP/ Fapesp, 2000 (Estudos Históricos, 44).

A preguiça é paulista

RHBN 01/07/2009
A preguiça é paulista
Novo governador se surpreende com a miséria e a depravação da capitania de São Paulo. Os habitantes não queriam saber de trabalho
Lílian Lisboa Miranda

A capitania estava “morta”. Esta foi a dura constatação de D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão (1722-1798) ao aportar em São Paulo. Recém-nomeado governador, ele encontrou uma terra arrasada, sem produção, cujo povo andava metido pelas matas, “sem lei e sem fé”, como “feras”. Culpa da preguiça quase doentia que acometia todos os habitantes. Aquela gente parecia inconciliável com o trabalho.

Havia tempo que o território paulista passava por franca decadência econômica e política. As principais riquezas vinham das Minas Gerais, e seu caminho natural de escoamento era o litoral carioca. São Paulo chegou a perder seu status de capitania, incorporado aos domínios administrativos do Rio de Janeiro. Mas a crise que se abateu sobre Portugal em meados do século XVIII, com o declínio das remessas de ouro e diamantes, levou o governo a impor uma nova política para a Colônia. Uma das providências foi recriar a capitania de São Paulo e investir em sua produção. Diante do povo que se encontrava ali, seria um trabalho árduo.

Para comandar o processo, o primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Melo (futuro marquês de Pombal) nomeou o fidalgo D. Luís Antônio. Homem de vários títulos, entre eles o de morgado de Mateus – honraria hereditária ligada à posse de um território –, era militar de carreira e vinha de uma família de varões que tradicionalmente serviam em várias áreas da administração do Estado.

Logo na chegada ao Rio de Janeiro, em 1765, o português entusiasmou-se com a riqueza da Colônia e seu potencial econômico. De São Paulo, no entanto, sua primeira impressão foi a pior possível. Era uma terra “depravada nos costumes”. Em carta ao primeiro-ministro, afirmou que parte da culpa pelo lastimável estado em que se encontrava a capitania era de seus próprios habitantes, que viviam “sem sujeição ou civilidade alguma”. Muitos eram assassinos, e as “parcialidades, os roubos, a falta de justiça” eram comuns.

Os vadios, como eram denominados os homens livres pobres, sentiam verdadeira repugnância pelo trabalho agrícola. Viviam de pequenas roças de subsistência, e para complementar a dieta, saíam para as matas, caçando animais e coletando vegetais. O hábito de se alimentarem de “bichos imundos e coisas asquerosas”, além de comprovar o caráter incivilizado daqueles homens, preocupava o novo governador por outros motivos. Esta seria a origem dos numerosos casos do chamado mal de Lázaro (a hanseníase) entre a população. Além disso, a improdutividade precisava ser combatida pelo bem da economia: faltavam até gêneros alimentícios na capitania, e quase não havia produção agrícola para exportação. Incentivar a cultura de cana-de-açúcar era uma prioridade para a Coroa. Mas, para isso, era preciso dar um jeito na índole daquela gente, que passava a maior parte do tempo sem fazer nada – “de noite e de dia estão deitados ou balançando na rede, ou cachimbando”.

Para as autoridades portuguesas, o caráter deturpado dos colonos tinha uma causa: eram os malefícios dos ares da América. Se no início do processo de colonização eles chegaram a ser louvados como saudáveis, com o tempo adquiriram a fama de corruptores do caráter e da boa condição física e mental dos habitantes. Isso explica por que o mal da preguiça não era privilégio dos homens nascidos na Colônia: contagiava também os portugueses que passavam a habitá-la. Indivíduos recém-chegados às terras paulistas em pouco tempo tornavam-se displicentes e não queriam, de modo algum, empregar-se em atividades produtivas. Empenhavam-se, sim, em virar senhores, comprando escravos e vivendo da exploração de seu trabalho. Diante desse risco de “contaminação”, D. Luís Antônio chega a questionar a conveniência da vinda de mais portugueses para a América.

O desejo de assumir o papel de senhor, delegando o trabalho a outros, não tinha distinção social. Mesmo homens pobres, assim que possível, tratavam de adquirir ao menos um ou dois escravos para o trabalho nos campos. Os livres não queriam ser confundidos com cativos, e a forma de se diferenciarem era manter as mãos limpas, longe da terra. Já os portugueses que chegavam, vindos de uma sociedade dividida por critérios de nobreza, encontravam na Colônia a oportunidade de “dar-se ares de fidalgo”. O que significava viver de pernas para o ar.

O governador costumava ter o cuidado de não se indispor com a elite local. Suas críticas se direcionavam principalmente à gente de menor condição. Os “filhos do reino possuidores de casas de negócio, fazendas ou lavras estabelecidas”, assim como os fidalgos paulistas, mereciam sua consideração: eram “industriosos” e donos de civilidade. Mas, às vezes, os costumes dos mais abastados também o incomodavam. Entre eles, o luxo excessivo das vestimentas e dos calçados, impróprios para o clima tropical. Nas ruas da capitania, que não eram pavimentadas, esse exagero no trajar causava grandes dificuldades para a locomoção. Pompa e requintes desnecessários também se viam na alimentação: um excesso de produtos importados do reino, que, a depender dele, deveriam ser substituídos por gêneros nativos.

A Colônia portuguesa parecia desconhecer os avanços que a Europa fizera no campo da agricultura. As técnicas de plantio utilizadas pelos paulistas eram atrasadas e precárias. Lavrava-se a terra de forma extensiva e itinerante: depois de poucas colheitas, o solo se exauria e a produtividade caía. O jeito era sair em busca de outra área em que pudessem repetir o processo. Para melhorar a produtividade, tudo o que sabiam fazer era promover queimadas de áreas florestais. A erosão e o empobrecimento do solo devastavam a capitania, o que reduzia a atividade agrícola à mediocridade, levando São Paulo à ruína e, para seu profundo pesar, impedindo o reino de se recuperar economicamente. D. Luís Antônio bem que tentou introduzir a tecnologia do arado entre os agricultores locais. Em vão: eram gentes indolentes, presas de grande teimosia e de uma absoluta falta de iniciativa.

Para completar o quadro desesperançado, os selvagens paulistas viviam distantes da religião. Como “onde falta Deus (...) não pode haver coisa boa”, nas palavras do morgado, a difícil missão de transformar aquele povo passava por todo um novo ordenamento social. Foi isso o que propôs, em forma de legislação. A Lei dos Sítios Volantes, de 1766, previa a fundação de novas vilas e pequenas comunidades, para onde deveriam ir os “vadios, facinorosos e bastardos”, acompanhados de suas famílias. Essas “povoações civis”, com pelo menos 50 habitações, iriam formar uma rede e tornar-se um poderoso instrumento para reunir a população dispersa, instaurando a ordem, a obediência, o exercício do serviço religioso e a prática de uma agricultura mais racional. Também facilitariam o recrutamento militar, elemento essencial para a defesa do território português e a garantia da posse de áreas de contestação de fronteiras com a Coroa espanhola.

Assim foram fundadas as vilas de São Luiz do Paraitinga (SP), São Luiz da Marinha de Guaratuba (atual Guaratuba, PR), São José de Moji-Mirim (atual Mogi-Mirim, SP), São José da Paraíba, (atual São José dos Campos, SP) e Prazeres de Lages (atual Lages, SC).

Em defesa do governador, vale lembrar que ele não foi o único a julgar os paulistas de forma tão negativa. Muitos dos administradores que estiveram na América acreditaram que o grande problema da Colônia era o povo. Terra de mamelucos, índios e mestiços, São Paulo sempre foi considerada quase selvagem aos olhos da Coroa. Gente traiçoeira e indigna de confiança, os paulistas deveriam ser constantemente vigiados. Os naturais da terra, por não praticarem a agricultura com fins mercantis, foram tachados de ociosos e vagabundos.

Mas os “selvagens” bem que serviram aos interesses do reino. Não chegaram a ser completamente dominados, mas foram muitas vezes disputados por sua incrível capacidade de aturar os trabalhos mais duros e ásperos. Transformaram-se em povoadores de rincões distantes, abriram estradas, consertaram pontes e caminhos e impediram a penetração espanhola em áreas fronteiriças. Coisas que preguiçoso nenhum faria.

Lílian Lisboa Miranda é professora do Centro Universitário Fundação Santo André e autora, com Patrícia Albano Maia, de São Paulo Colonial: sua gente e seus costumes (Atual Editora, 2006).

Saiba Mais - Bibliografia:

BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil Colonial: o Governo do Morgado de Mateus em São Paulo. São Paulo: Editora Alameda, 2007.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e fronteiras. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras,1994.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Monções. 3ª ed. ampliada. São Paulo: Brasiliense, 1990.

Preguiçosos ontem, trabalhadores hoje

Se o governador de São Paulo atribuía aos paulistas a pecha de preguiçosos, este título foi conferido, séculos depois, aos cariocas. A rivalidade entre os estados, que cresceu no século XX por razões políticas e econômicas, acabou por estimular algumas provocações entre seus habitantes. Foram criados rótulos para os dois lados: paulistas são trabalhadores e cariocas são ociosos.

A rivalidade, que entrou para o folclore nacional, rendeu pérolas, como as frases do pernambucano mais carioca de todos os tempos, Nelson Rodrigues: “O pior tipo de solidão é a companhia de um paulista”; ou esta, sobre os cariocas: “O carioca é um ser encantado. No Rio, dois sujeitos que nunca se viram tornam-se como que súbitos amigos de infância e caem nos braços um do outro, aos soluços”.

As provocações de ambos os lados têm um fundo comum: a ideia, difundida ao longo do século passado, de que os nascidos na Cidade Maravilhosa são naturalmente extrovertidos, dedicados ao ócio, à contemplação, à diversão, enquanto seus vizinhos da Terra da Garoa são pessoas sérias, introvertidas, dedicadas ao trabalho, são, enfim, a locomotiva do Brasil.

Não foi sem razão, portanto, o espanto causado por uma pesquisa do IBGE, de 2006, que apontava uma realidade contrária ao mito: os cariocas têm uma média semanal de trabalho de 41,6 horas, contra 41,3 dos paulistas. Ou seja, apesar da praia, da cervejinha no fim do dia e do futebol após o expediente, os cariocas trabalham mais.

A formação da monarquia inglesa

Nos primórdios da Idade Média, a região da Bretanha foi invadida pelas tribos dos anglos e saxões. No século XI, por volta de 1060 os normandos do norte da França invadiram as ilhas britânicas sob a liderança do rei Guilherme, o Conquistador. Na batalha de Hastings, ocorrida em 14 de outubro de 1066, chegou ao fim a hegemonia dos anglo-saxões na região. No entanto, o longo período de hegemonia bárbara favoreceu a consolidação dos poderes locais consolidados sob a lógica feudal.

A Inglaterra teve seu processo de centralização política iniciado a partir da Baixa Idade Média, momento em que a Bretanha estava politicamente dividida em quatro reinos distintos. Sob o comando do rei Henrique II, o processo de unificação territorial foi iniciado com relativa eficácia durante o século XII. No governo seguinte, comandado pelo rei Ricardo Coração de Leão, diversas lutas contra os franceses e o envolvimento nas Cruzadas enfraqueceram o papel da autoridade monárquica.

A falta de um rei presente e os grandes custos gerados com os gastos em guerras e conflitos motivou a classe nobiliárquica a impor um documento limitando às funções régias. No ano de 1215, o rei João Sem Terra ficou em uma situação delicada quando foi obrigado a assinar a Magna Carta, que impedia o rei de criar novos impostos ou alterar leis sem a aprovação do Grande Conselho, um órgão formado por integrantes da nobreza e do clero.

A criação do Grande Conselho foi considerada por muitos historiadores como um elemento que impediu a formação de um governo tipicamente absolutista na Inglaterra. Ao ingressar na Guerra dos Cem Anos, entre os séculos XIV e XV, os exércitos e a autoridade monárquica britânica passaram a ser prestigiadas mediante as sucessivas vitórias obtidas nesse confronto contra os franceses. Além disso, as revoltas camponesas do século XIV também contribuíram com o enfraquecimento das autoridades locais.

Com o fim da Guerra dos Cem Anos, a política inglesa ainda sofreu um sério abalo com a disputa entre as famílias York e Lancaster, que se enfrentaram na Guerra das Duas Rosas. No final do conflito, a dinastia Tudor passou a controlar o trono britânico sob a liderança do monarca Henrique VII. A partir de então, a Estado Britânico se fortaleceu de maneira impressionante pautando sua hegemonia, principalmente, no fortalecimento de suas atividades mercantis. Nos governos de Henrique VIII e Elizabeth I o estado nacional britânico alcançou seu auge, afirmando o absolutismo na Inglaterra.
http://www.mundoeducacao.com.br/historiageral/formacao-monarquia-nacional-inglesa.htm

A formação da monarquia francesa

Ao longo da Idade Média, o território francês sofreu com o processo de desfragmentação política motivado pelo surgimento do feudalismo. Somente no século XII, ainda durante a dinastia capetíngia, o processo de centralização política francês foi iniciado pelo rei Filipe II. Usando dos conflitos contra os ingleses pelo controle do norte da França, este monarca conseguiu formar um grande exército sustentado pelos impostos cobrados ao longo do território nacional.

A formação desse imponente exército e a vitória contra os ingleses permitiu a ampliação do poder político real. A partir de então, o rei francês criou um articulado corpo de funcionários públicos que deveriam impor a autoridade real em oposição aos senhores feudais. Paralelamente, a burguesia passou a ceder grandes quantias para que o rei garantisse a liberdade das cidades através de uma carta de franquia, documento concedido pelo próprio monarca que liberava os centros urbanos das taxações feudais.

Durante o governo do rei Luís IX, o poderio real foi ampliado com a criação de instituições jurídicas subordinadas às leis nacionais e a economia comercial se fortaleceu com a instituição de uma única moeda nacional. Tempos depois, no governo de Filipe IV, o Belo, a autoridade monárquica já era uma realidade presente. No ano de 1302, a assembléia dos Estados Gerais – composta pelo clero, a nobreza e os comerciantes – foi criada com o intuito de reafirmar a ação política do rei.

Através desse órgão, o rei Filipe IV conseguiu impor taxas sobre as propriedades da Igreja. A ação do monarca francês foi imediatamente repreendida pelo papa Bonifácio VIII, que ameaçou o rei de excomunhão. Com a morte do papa, Filipe IV interferiu para que o cardeal francês Clemente V fosse escolhido como papa e, além disso, forçou que a sede do Vaticano fosse transferida para a cidade de Avignon. Nas décadas seguintes, esse episódio marcou uma rixa entre o Estado francês e a Igreja conhecida como o “cativeiro de Avignon” ou “Cisma do Ocidente”.

A essa altura, a supremacia da autoridade monárquica francesa parecia não ter mais nenhum tipo de obstáculo. No entanto, as disputas fiscais e territoriais com a Inglaterra inseriram o Estado francês nos prolongados e penosos conflitos que marcaram a Guerra dos Cem Anos. Ao longo do século XIV, os gastos com a guerra e as conturbações sociais provenientes da Peste Negra e das revoltas camponesas abalaram a supremacia monárquica. Somente no século seguinte, uma série de levantes populares conseguiu interromper as seguidas vitórias dos britânicos na guerra.

Foi nesse contexto que surgiu a mítica figura de Joana D’Arc, uma humilde filha de camponeses que comandou diversas lutas contra a Inglaterra, alegando cumprir ordens divinas. Essas vitórias fortaleceram politicamente Carlos VII, que foi coroado como rei da França e reorganizou a reação militar contra os britânicos. Mesmo sendo queimada em 1430, acusada de heresia, os feitos heróicos de Joana serviram para que os franceses voltassem a se empenhar na luta.

No ano de 1453, o rei Carlos VII concluiu o processo de expulsão dos britânicos do território francês e passou a comandar com amplos poderes. Com o apoio dos grandes burgueses, centralizou o governo nacional, criou novos impostos e financiou a instituição de um exército permanente. A partir de então, a França tornou-se o exemplo máximo do absolutismo real europeu.

Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola

A formação da monarquia espanhola

A Península Ibérica, durante o século VIII, teve grande parte de seus territórios dominados pelos árabes que, inspirados pela jihad muçulmana, empreenderam a conquista de diversas localidades do Oriente e do Ocidente. Na porção centro-sul, os árabes consolidaram a formação do Califado de Córdoba, enquanto a região norte ficou sob controle dos reinos cristãos de Leão, Castela, Navarra, Aragão e o Condado de Barcelona.

Por volta do século XI, esses reinos católicos resolveram formar exércitos que – inspirados pelo movimento cruzadista – teriam a missão de expulsar os “infiéis” muçulmanos daquela região. A partir de então, a chamada Guerra de Reconquista se alongou até o século XV. Com o desenvolvimento desses conflitos, os diferentes reinos participantes do combate conseguiram reduzir a presença dos muçulmanos e conquistar novas terras que enriqueceram tais governos.

Durante essas guerras, os reinos ibéricos conseguiram a participação do francês Henrique de Borgonha, nobre que participou da guerra em troca do controle sob as terras do Condado Portucalense. Anos mais tarde, essa região deu origem à Monarquia Nacional Portuguesa. Já no século XV, a hegemonia dos reinos católicos era garantida pelo reino de Castela, que controlava a grande maioria das terras da Península Ibérica nesse período.

Em 1469, a presença muçulmana estava restrita ao Reino Mouro de Granada. Nesse mesmo ano, os territórios do Reino de Castela e Aragão foram unificados graças ao casamento entre os monarcas cristãos Isabel de Castela e Fernando de Aragão. Depois disso, novos exércitos foram responsáveis por expulsar os muçulmanos definitivamente com a tomada de Granada, no ano de 1492. A partir de então, esse reino passou a fortalecer-se com franco incentivo ao comércio marítimo.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola

A formação da monarquia portuguesa

A instalação das monarquias espanhola e portuguesa é usualmente compreendida a partir das guerras que tentaram expulsar os muçulmanos da Península Ibérica. Desde o século VIII os árabes haviam dominado boa parte do território ibérico em função da expansão muçulmana ocorrida no final da Alta Idade Média. A partir do século XI, no contexto das Cruzadas, os reinos cristãos que dominavam a região norte formaram exércitos com o objetivo de reconquistar as terras dos chamados “infiéis”.

Os reinos de Leão, Castela, Navarra e Aragão juntaram forças para uma longa guerra que chegou ao fim somente no século XV. Nesse processo, os reinos participantes desta guerra buscaram o auxílio do nobre francês Henrique de Borgonha que, em troca, recebeu terras do chamado condado Portucalense e casou-se com Dona Teresa, filha ilegítima do rei de Leão. Após a morte de Henrique de Borgonha, seu filho, Afonso Henriques, lutou pela autonomia política do condado.

A partir desse momento, a primeira dinastia monárquica se consolidou no Condado Portucalense dando continuidade ao processo de expulsão dos muçulmanos. As terras conquistadas eram diretamente controladas pela autoridade do rei, que não concedia a posse hereditária dos feudos cedidos aos membros da nobreza. Paralelamente, a classe burguesa se consolidou pela importante posição geográfica na circulação de mercadorias entre o Mar Mediterrâneo e o Mar do Norte.

No ano de 1383, o trono português ficou sem herdeiros com a morte do rei Henrique I. Nesse momento, o reino de Castela tentou reivindicar o domínio das terras lusitanas apoiando o genro de Dom Fernando. Sentindo-se ameaçada, a burguesia lusitana empreendeu uma resistência ao processo de anexação de Portugal formando um exército próprio. Na batalha de Aljubarrota, os burgueses venceram os castelhanos e, assim, conduziram Dom João, mestre de Avis, ao trono português.

Essa luta – conhecida como Revolução de Avis – marcou a ascensão de uma nova dinastia comprometida com os interesses da burguesia lusitana. Com isso, o estado nacional português se fortaleceu com o franco desenvolvimento das atividades mercantis e a cobrança sistemática de impostos. Tal associação promoveu o pioneirismo português na expansão marítima que se deflagrou ao longo do século XV.

Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola

Templários: entre a cruz e a coroa

Revista História Viva edição 59 - Agosto 2008

Templários: entre a cruz e a coroa
A popularidade do mito criado em torno da Ordem esconde o papel original que os cavaleiros desempenharam no embate entre o papado e as monarquias nacionais no século XIV
por Marcelo Cândido da Silva


Templários são presos no século XIV por ordem do rei Felipe, o Belo
A Idade Média é um tema profundamente atual. O período é hoje tema de filmes, espetáculos, romances, festas medievais, lojas e restaurantes, sites da internet, jogos como RPG etc. Mesmo de um ponto de vista acadêmico, algumas obras recentes mostram uma verdadeira obsessão pelas origens medievais da Europa e da própria União Européia.

A Ordem dos Templários constitui um dos temas que melhor ilustram o fascínio exercido pela Idade
Media nos dias de hoje. Uma rápida consulta em qualquer sítio de busca na internet mostra a atualidade do interesse pela Ordem dos Templários. Muito se tem escrito sobre o caráter místico da Ordem, seu papel como guardiã de segredos e tesouros
da Igreja e até mesmo sobre seu caráter “demoníaco”. Por outro lado, a própria história da Ordem fornece elementos que ajudam a entender essa lenda contemporânea. O processo movido contra a Ordem pelo rei da França, Felipe IV, no início do século XIV, na medida em que incluía acusações de heresia e bruxaria, em muito contribui hoje para a associação entre os Templários e o ocultismo.
O fato é que as apropriações contemporâneas obscureceram a originalidade e o significado da Ordem no período medieval. Em que pese sua fundação em um contexto cruzadístico (mais precisamente em 1120), a história dos Templários insere-se mais profundamente no projeto de Reforma da Igreja (também conhecido como Reforma Gregoriana), levado a cabo pelo papado a partir da metade do século XI. Este último buscou se servir da Ordem como um instrumento de transformação, de pacificação e de controle da sociedade.

Em 1139, através da bula Omne datum Optimum, os Templários foram colocados sob a proteção direta do papado, obtendo autonomia em relação às autoridades episcopais. Alain Demurger afirma que essa tendência à instrumentalização dos cavaleiros se acentuou durante as Cruzadas, já que essas peregrinações armadas rumo a Jerusalém combinavam o valor penitencial da peregrinação à ideologia dos “movimentos de paz”, intensificando o processo de sacralização da guerra empreendido pelos reformadores gregorianos.

Mas a conformação dos cavaleiros à ideologia eclesiástica não significava uma renúncia completa ao mundo, tal como acontecia entre os monges, e sim a submissão de suas atividades guerreiras aos desígnios do Cristo, como bem lembrou Jean Flori. Em outras palavras, eles se tornavam “cavaleiros de Cristo”, perfeitamente integrados à sociedade cristã e aos seus objetivos, e não mais cavaleiros em busca da simples glória terrena. É precisamente na conciliação de duas esferas até então incompatíveis – a vida militar e a vida religiosa – que reside a originalidade da Ordem dos Templários. A intervenção do rei da França, Felipe IV, que ordenou em 1307 a prisão de todos os Templários presentes no reino, o confisco de seus bens, bem como os processos políticos movidos contra eles, marcaram a crise do papado e o fortalecimento das monarquias nacionais.

Marcelo Cândido da Silva é professor de história medieval da Universidade de São Paulo (USP), Coordenador do Laboratório de Estudos Medievais (LEME) e autor de A realeza cristã na Alta Idade Média (Alameda, 2008).

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O pioneirismo português

Revista História Viva edição 71 - Setembro 2009

Lisboa, antigo viveiro de ambições
No século XV, a capital portuguesa e seu porto atraíam exploradores e produtos exóticos de muitas partes do mundo. Mais parecia uma torre de Babel, ainda que jamais tenha perdido o ar provinciano. As marcas desse passado estão à disposição do visitante

por Anne Le Cam



Um irônico embaixador da França em Lisboa, no século XVI, usou uma metáfora para defi nir a cidade: “Sua Majestade mora em cima de sua quitanda”. De fato, o Paço da Ribeira, palácio real hoje desaparecido, dava diretamente nos cais do estuário do rio Tejo, um porto natural no qual se alinhavam até 3 mil navios vindos da África e da Ásia.

Veneza, nas franjas do Oriente bizantino, mantivera até o século XV o monopólio do comércio terrestre com a Ásia. De lá as riquezas seguiam em navios rumo a Flandres ou à Inglaterra, com escala em Lisboa. Por isso, a cidade estava familiarizada com os carregamentos exóticos: no pátio do Paço da Ribeira, amontoavam-se os fardos de algodão e as cargas de seda, especiarias e cauris (conchas usadas como moeda na África e na Ásia) e eram negociados pedras preciosas e corais.

Portugal tomou a dianteira das expedições no Atlântico por muitas razões. O país não tinha ouro nem trigo. Não tinha terras abundantes nem braços para a lavoura. O futuro de Portugal pertencia aos oceanos. O progresso da navegação e a audácia dos portugueses já os tinham levado à costa africana. Quanto mais avançavam nas expedições à África, maior era a diversidade dos produtos desembarcados em Lisboa. O mais próspero dos comércios, contudo, era o de escravos.

A febre de riqueza negligenciou a produção alimentar, pois os lucros dos mares permitiam a Lisboa importar grãos. O êxodo rural inchou a cidade, que já no século XVI era uma espécie de monstro demográfico, com cerca de 100 mil habitantes em 1551.

Em 1488, Bartolomeu Dias dobrou o cabo da Boa Esperança. Aberta a rota marítima da Ásia via o contorno da África, Lisboa suplantou Veneza e os árabes. Em 1500, Cabral chegou ao Brasil. O cultivo da cana começou em 1532, assim como a maciça deportação de negros para a América. E Lisboa cresceu ainda mais.

Mas o comércio em Portugal não era negócio de burguês, e sim dos nobres e do clero. E essa elite despendia toda a riqueza em suas terras e castelos, ao contrário da burguesia de outros Estados, que, poupadora, reinvestia o que ganhava em novas empresas.
Assim, Portugal não se desenvolveu, mas cobriu-se de ricos edifícios e obras de arte. E, em memória desse tempo áureo, os portugueses ergueram mais tarde outros marcos, que fazem o turista viajar pelo país dos séculos anteriores.

PATRIMÔNIOS
O imenso terreiro do Paço, hoje praça do Comércio, situado na Baixa de Lisboa, foi reconstruído pelo marquês de Pombal. Reúne um conjunto arquitetônico do século XVIII que se abre para o Tejo. Tudo ali se destaca: é a porta de entrada da cidade.

O bairro de Belém conserva as duas obras do estilo manuelino que se tornaram Patrimônio Cultural da Humanidade. A Torre de Belém, concluída em 1520 e várias vezes reformada, foi residência dos capitães do porto e até presídio político ao longo dos séculos. Já a construção do monastério dos Jerônimos começou em 1501 e terminou um século depois. Mescla o estilo manuelino a elementos da arte moura e do gótico espanhol.

O antigo bairro da Alfama foi relativamente poupado do grande terremoto de 1755 e tem ruas pitorescas, que abrigam a igreja de São Miguel, com trabalhos em madeira do século XVIII. Do lado externo do monastério de São Vicente de Fora, há o mausoléu da última dinastia portuguesa, os Braganças.

Dois museus merecem ser conhecidos para penetrar na alma profunda dos lusitanos. O Museu dos Azulejos, no convento Madre de Deus, mostra a moda, posterior à era dos descobrimentos, de cobrir edifícios civis e religiosos de cerâmicas. E o Museu da Marinha, construído na praia da qual partiu Vasco da Gama, permite desvendar o caso de amor dos lusitanos com o oceano.

Anne Le Cam é mestre em história medieval

Higiene na Idade Média

Não havia higiene na Idade Média?
Os homens cheiravam mal e não trocavam de roupa, e os camponeses viviam com animais. Não existiam banhos, mesmo porque lavar-se não era coisa bem vista. Certo? Errado!
por Olivier Tosseri


Muita gente aprende nos bancos escolares ou em referências no cinema e em livros que os tempos medievais foram um zero à esquerda em matéria de asseio. Não é bem assim. Havia higiene na Idade Média, quando também se usava a água por prazer. Esse só não era um valor tão disseminado como hoje nas sociedades carentes, como em todos os períodos passados, de meios de educação abrangentes e democráticos.

Acervos preciosos de arte e objetos do período incluem itens usados na toalete de homens e mulheres, assim como iluminuras que representam pessoas se lavando. Os tratados de medicina e educação de Bartholomeus Anglicus, Vicente de Beauvais ou Aldobrandino de Siena, monges que viveram no século XIII, mostram uma preocupação real em valorizar a limpeza, principalmente a infantil.

A água era um elemento terapêutico e servia tanto para prevenir quanto para curar as doenças. Desenvolveram-se as estâncias termais e era recomendado e estimulado lavar-se regularmente. Como as casas não tinham água corrente, os grandes locais de higiene eram os banhos. Certamente herdados da Antiguidade, é provável que tenham voltado à moda graças aos cruzados retornados do Oriente, onde se havia conservado a tradição.

Nas cidades, a maioria dos bairros tinha banhos públicos, chamados de “estufas”, cuja abertura os pregoeiros anunciavam de manhã. Em 1292, Paris, por exemplo, contava com 27 estabelecimentos. Alguns deles pertenciam ao clero. O preço da entrada era elevado, e nem todos podiam visitá-los com assiduidade.

Na origem, os frequentadores se contentavam com a imersão em grandes banheiras de água quente. O procedimento se aperfeiçoou com o surgimento de banhos saturados de vapor de água. Utilizava-se o sabonete ou a saponária, planta que fazia a água espumar, para um melhor resultado. Para branquear os dentes, recorria-se a abrasivos à base de conchas e corais.

Tal era o sucesso desses locais que a corporação dos estufeiros foi regulamentada. Eles tinham direito a preços predeterminados e o dever de manter água própria e impedir a entrada de doentes e prostitutas. A verdade, porém, é que as estufas foram se transformando cada vez mais em lugar de encontros galantes: os banhos em comum e os quartos colocados à disposição dos clientes favoreciam a prostituição.

No século XIV, recorreu-se a éditos para separar os homens das mulheres, mas foi durante o século XV que se verificou uma mudança de mentalidade. A Igreja endureceu suas regras morais, pois passou a ver com maus olhos tudo quanto se relacionasse com o corpo. E os médicos já não consideravam a água benéfica, mas sim responsável e vetor de enfermidades e epidemias. Segundo eles, os poros dilatados facilitavam a entrada de miasmas e impurezas.

A grande peste de 1348 recrudesceu esse entendimento. Desde então, passou-se a desconfiar da água, que devia ser usada com moderação. Os banhos declinaram e, pouco a pouco, desapareceram. Foi preciso aguardar o século XIX e o movimento higienista para que se produzisse uma nova mudança de mentalidade.
Olivier Tosseri é jornalista
Revista História Viva
edição 74 - Dezembro 2009

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Escolástica

Historicamente, a escolástica pode dividir-se em três períodos: Escolástica primitiva (sécs. IX ao XII); Escolástica média (sécs. XII e XIII) e Escolástica tardia (sécs. XIV e XV).

Escolástica primitiva - inícia-se com o renascimento carolíngio e com o ressurgimento da escola que então se verifica. Aí se desenvolve um método de ensino que posteriormente será elaborado nos seus mínimos detalhes, constituído pelas quaestiones (problemas sujeitos a exame) e disputationes (exposição de argumentos a favor ou contra). As grandes disputas centram-se então em torno de dois problemas fundamentais: o problema da relação entre a fé e a razão (entre entre dialécticos, partidários da razão, e anti-dialécticos, defensores da fé) e a polémica dos universais.

Escolástica média - surgem diversos tipos de escolas (inclusivé as primeira universidades) e inicia-se um intenso trabalho de tradução (principalmente na Península Ibérica) que vai possibilitar o conhecimento dos clássicos gregos e latinos, concretamente, a filosofia natural e a metafísica de Aristóteles, juntamente com as obras dos seus comentaristas gregos e árabes. No século XIII, com a introdução, em Paris, da filosofia árabe, representada pelo contributo dado por Averróis enquanto comentador de Aristoteles, inicia-se uma tendência denominada averroísmo latino, que preconiza, entre outras, a defesa da tese da dupla verdade (fé e a razão são verdades independentes e igualmente legítimas). Com a reestruturação das ordens religiosas e a criação das ordens franciscana e dominicana, a escolástica alcançou o seu ponto culminante, representado fundamentalmente pela obra de S. Tomás de Aquino, membro da escola dominicana, que adaptou, seguindo de perto Averróis, a filosofia de Aristóteles ao pensamento cristão. Pelo contrário, a escola franciscana, de que S Boaventura é um representante maior, é inspirada no neoplatonismo e na filosofia de Santo Agostinho.

Escolástica tardia - o séc. XIV caracteriza-se pela separação definitiva entre a filosofia e a teologia. A teologia mantém-se em vigor na escola franciscana, representada por Duns Escoto e G. de Occam, e a filosofia instala-se no empírico, no particular e no sensível. A escolástica conhece antão um notável florescimento em Espanha e Portugal, dinamizado pelas ordens dominicana e dos Jesuítas, orientadas para a nova interpretação que se fez da teoria de S. Tomás em Itália. O dominicano F. de Vitoria fundou uma escola de Salamanca em que se formaram notáveis teólogos tomistas, os quais, juntamente com os jesuítas de Coimbra e F. Suárez, em polémica com o escotismo e o nominalismo, defenderam uma síntese de escolástica tradicional com as novas tendências de pensamento da época.
http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/modelos/escolastica.htm

Cruzadas : os dois lados

Os 2 lados das Cruzadas
Há quase mil anos, o Ocidente trombou com o Oriente. O mundo cristão invadiu o mundo muçulmano e deu origem a 200 anos de guerra. Só dá para entender essa história se conhecermos os dois lados dela
por Rodrigo Cavalcante
Cruzada. No mundo pós-11 de setembro, a simples menção dessa palavra causa polêmica. Após o ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush teve de pedir desculpas por usar o termo “cruzada” para nomear sua guerra contra o terrorismo. Osama bin Laden aproveitou a gafe. Em seu pronunciamento, o terrorista classificou a guerra no Afeganistão de “cruzada religiosa contra os muçulmanos”. A palavra ressuscitava dos livros de história. Só faltava Hollywood se interessar pelo assunto. Não deu outra.

O enredo do filme Cruzadas, de Ridley Scott, que está chegando aos cinemas, gira em torno de um ferreiro que se torna cruzado. Em tempos de Guerra no Iraque, nada mais natural que um filme com tema tão espinhoso despertasse protestos antes mesmo do lançamento. Em agosto de 2004, o jornal The New York Times entregou o roteiro de Cruzadas para teólogos cristãos e islâmicos. Os cristãos não viram problema, mas os muçulmanos acusaram o filme de estar cheio de erros.

Afinal, o que foram as cruzadas? Um ato de fé e heroísmo? Um massacre covarde? “Não faz sentido buscar hoje bandidos e mocinhos”, diz o holandês Peter Demant, historiador da USP. “As batalhas tiveram significados diferentes para o Ocidente e o Oriente”. Existem, portanto, duas histórias das Cruzadas. Nada melhor do que narrar essa história dos dois pontos de vista. Como você poderá constatar nos dois textos que correm nas páginas seguintes, as versões não se contradizem. São olhares diferentes que ajudam a entender por que, nove séculos depois, o assunto continua fascinando – e causando polêmica – nos dois lados do mundo.



O exército de Cristo
No dia 27 de novembro de 1095, o papa Urbano II fez um comício ao ar livre nas cercanias da cidade de Clermont, na França. Na audiência, além de muitos bispos, havia nobres e cavaleiros. Depois desse sermão, o mundo nunca mais seria o mesmo.

No discurso, o papa tentou convencer os espectadores a embarcar numa missão que parecia impossível: cruzar 3 mil quilômetros até a cidade santa de Jerusalém e expulsar os muçulmanos, que dominavam o lugar desde 638. Segundo os historiadores, Urbano II deve ter usado uma linguagem vibrante e provavelmente falou dos horrores que os peregrinos cristãos à Terra Santa estavam vivendo. Do alto de sua autoridade divina de substituto de São Pedro na Igreja, o papa prometeu: quem lutasse contra os infiéis ganharia perdão de todos os pecados e lugar garantido no paraíso. Um prêmio tentador no imaginário do homem cristão medieval, sempre atormentado pela ameaça de queimar no inferno.

A reação da multidão foi imediata. Gritos de “Essa é a vontade de Deus” começaram a ecoar. A pregação mal havia terminado e o bispo Ademar de Monteil, num gesto provavelmente ensaiado, ajoelhou-se diante do papa e “tomou a cruz”, ritual de alistamento em que o voluntário recebia uma cruz de pano que deveria ser costurada na altura do ombro do uniforme de batalha. Ademar embarcaria na primeira cruzada. Dali em diante, aquela cruz passaria a identificar os “soldados de Cristo”, ou, simplesmente, “cruzados”.

Segundo os historiadores, a intenção do papa era convocar apenas cavaleiros bem preparados. Mas seu discurso empolgou especialmente os camponeses pobres que tinham pouco a perder. As cruzadas terminariam entrando para a história como o maior movimento populacional da Idade Média, redefinindo para sempre o mapa do mundo.

A ameaça do Islã

No século 11, não havia dúvidas: o Islã era a religião mais forte do planeta. Em menos de cinco séculos, desde a morte de Maomé, em 632, a palavra de Alá tinha conquistado a Península Arábica, o norte da África, a Ásia Central, Espanha, Portugal, grande parte da Índia e até um pedacinho da China.

Não era uma hegemonia apenas religiosa. Os muçulmanos superavam os cristãos em ramos como a matemática, a astronomia, a medicina e a química. Não havia cidade européia que se comparasse aos centros islâmicos. O Cairo sozinho abrigava tanta gente quanto Paris, Veneza e Florença juntas, as três maiores cidades cristãs da época.

Foi quando chegou ao papa um pedido de ajuda do Império Cristão Bizantino. A sede do império, Constantinopla (atual Istambul, capital da Turquia), era o maior centro do cristianismo naquela parte do mundo. Os bizantinos estavam preocupados com a presença nas suas fronteiras dos muçulmanos, naquela época governados por uma agressiva monarquia de etnia turca, os seljúcidas. Originados de uma tribo de saqueadores nômades das estepes da Ásia Central, os seljúcidas haviam conquistado os territórios do califado de Bagdá no século 10 e, após se converterem ao islamismo, tornaram-se a maior força muçulmana. E eles queriam mais. Já tinham tomado a cidade bizantina de Nicéia e estavam a menos de 160 quilômetros de Constantinopla, o equivalente a três dias a cavalo.

Naquele momento, não restava alternativa ao imperador bizantino Aleixo Comenos a não ser apelar para seus confrades europeus. Só que, quando o imperador avistou a primeira leva de combatentes cristãos, teve motivos de sobra para se preocupar.

Cruzada Popular

Se é verdade que a intenção do papa era enviar um exército forte e organizado, formado pela elite dos cavaleiros, ele se frustrou um pouquinho. Uma série de pregadores populares começaram a incitar o povão a atacar os “infiéis”. A promessa de remissão dos pecados, aliada à chance de pilhar tesouros lendários, era bem atraente. Velhos, mulheres e crianças resolveram se lançar na aventura.

O primeiro desses exércitos foi liderado por um pregador conhecido como Pedro, o Eremita. Já no caminho, seus seguidores criaram tumultos, massacrando comunidades judaicas em cidades como Trier e Colônia, na atual Alemanha. “As cruzadas fugiram do controle”, diz a professora Leila Rodrigues da Silva, professora de História Medieval da UFRJ. “É provável que muitas dessas pessoas nem soubessem diferenciar um judeu de um muçulmano.”

Ainda assim, o imperador bizantino recebeu os seguidores do Eremita em Constantinopla. Prudentemente, Aleixo aconselhou o grupo a aguardar a chegada de tropas mais bem equipadas. Mas a turba começou a saquear a cidade e foi obrigada a se alojar fora de Constantinopla, perto da fronteira muçulmana. Até que, em agosto de 1096, o bando inquieto cansou-se de esperar e partiu para a ofensiva. Foi massacrado.

Somente dois meses após essa “cruzada popular” começaram a chegar a Constantinopla os primeiros exércitos liderados por nobres. Esses homens estavam interessados em mais do que um lugarzinho no céu. “Nessa época, a Europa vivia um boom populacional e a pressão pela posse de terras era muito grande”, diz a historiadora da Idade Média Fátima Fernandes, da UFPR. “Os filhos de nobres que não eram primogênitos só podiam enriquecer por meio de um bom casamento, algo cada vez mais difícil. As cruzadas abriram uma esperança para eles”, diz ela.

Até que foi fácil

O primeiro líder nobre a chegar a Constantinopla, em dezembro de 1096, foi o conde Hugo de Vermandois, primo do rei da França, que veio pelo mar com seus cavaleiros e soldados. Logo depois, vindo pela mesma rota, aportou o duque da Baixa-Lorena, Godofredo de Bouillon, acompanhado de irmãos e primos. Para financiar sua participação na cruzada, Godofredo vendera seu castelo – o que prova que não pretendia voltar para casa.

Em abril de 1097, cerca de 40 mil homens atravessaram o estreito de Bósforo (que separa a Europa da Ásia) sem encontrar resistência. O governante muçulmano, o sultão turco Kilij Arslan, iludido pela facilidade com que havia derrotado os pobres cruzados do Eremita, estava mais preocupado com disputas internas com vizinhos muçulmanos do que com a chegada de um novo contingente de cristãos. Como o sultão iria perceber apenas tarde demais, esse seria o maior erro de sua vida.

Dessa vez, bem equipados com escudos, armaduras e cavalaria, os cruzados cercaram e tomaram Nicéia, devolvendo-a aos bizantinos. Em outubro de 1097, eles chegaram a Antióquia, conquistando aquela que havia sido uma das principais cidades do Império Romano. Seis meses depois, os cristãos partiram em direção a Jerusalém. A essa altura, restavam 13 mil homens, um terço do contingente inicial. Após um mês de cerco, em 13 de julho de 1099, os cruzados conseguiram finalmente entrar na cidade santa. No dia 15 venceram as últimas resistências.

Para a maioria deles, a conquista fora um milagre. Menos de quatro anos após a pregação em Clermont, os cristãos vitoriosos saíam em procissão para o Santuário do Santo Sepulcro, onde Cristo teria ressuscitado. O papa Urbano II morreu duas semanas depois, sem ter recebido a boa notícia da vitória. Mas ele também foi poupado das más notícias que chegariam depois.

Derrota após derrota

Foram criados quatro Estados cristãos nos territórios conquistados. Ao sul, o mais importante, o Reino de Jerusalém, governado por Godofredo de Bouillon. Um pouco acima estavam o Estado de Trípoli, o Principado de Antióquia e o Condado de Edessa. Os chefes desses Estados logo perceberam que a permanência lá não seria fácil.

Os governantes cristãos logo perderam o apoio dos bizantinos, porque se recusavam a reconhecer a soberania do Império na região e não haviam demonstrado nenhum escrúpulo em substituir os patriarcas da Igreja Ortodoxa Bizantina por bispos oriundos da Igreja Católica Romana. Para piorar, não havia soldados suficientes para a formação de grandes exércitos. Logo após a conquista de Jerusalém, milhares de cavaleiros regressaram à Europa.

Em 1144, a perda de Edessa para os muçulmanos foi a primeira prova da vulnerabilidade cristã. Com o objetivo de recuperar o território perdido, o papa Eugênio III lançou uma segunda cruzada em 1145, liderada por Luís VII, rei da França. Foi um fracasso. O filme que está chegando aos cinemas retrata as cruzadas a partir desse período.

Mas o pior estava por vir. Em 1187, sob a liderança de Saladino – o sultão que unificou os muçulmanos e até hoje é venerado por seguidores do Islã no mundo inteiro –, os muçulmanos reconquistaram o Reino de Jerusalém. Era o começo do fim.

A perda de Jerusalém foi um choque para a Europa cristã, apesar de Saladino ter permitido peregrinações ao Santo Sepulcro. Dali em diante, houve pelo menos mais quatro grandes cruzadas em direção à Terra Santa e os cristãos colecionaram derrotas e vexames. Um dos piores foi o de 1204, quando uma cruzada acabou atacando e saqueando a cidade cristã de Constantinopla, deixando cicatrizes profundas na relação entre os cristãos do Oriente e do Ocidente. Em 1212, organizou-se uma cruzada formada por adolescentes, a “Cruzada das Crianças”. Seus participantes, na maioria, terminaram mortos ou vendidos como escravos.

A herança cruzada

Mas, afinal, qual foi a herança das cruzadas para o Ocidente?

Segundo os historiadores, elas deixaram diversas marcas negativas, como a separação da Igreja do Ocidente e do Oriente e um rastro de violência que fez aumentar a desconfiança entre cristãos e muçulmanos nos anos seguintes.

Em compensação, é inegável que a Europa, apesar de não ter conquistado seus objetivos, saiu fortalecida. As cruzadas reforçaram a autoridade dos reis, abrindo caminho para a criação dos Estados Nacionais. Elas também impulsionaram o comércio com o Oriente, enriquecendo as cidades italianas que iriam ter papel fundamental na sofisticação das transações financeiras até resultar na criação do sistema bancário. Além disso, reforçaram a identidade cristã no Ocidente. E paradoxalmente, apresentaram os costumes orientais aos ocidentais, dos tapetes às especiarias. Essas novidades gerariam curiosidade na Europa, o que impulsionaria a busca por outras terras. Como o Brasil.

Mas isso tudo é só metade da história. Volte à página 54 para conhecer o lado menos conhecido das cruzadas.

Para saber mais

Na livraria:

The Oxford Ilustrated History of The Crusades - Jonathan Riley-Smith (org.), Oxford University Press, Reino Unido, 2001

Dicionário Temático do Ocidente Medieval - Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt (orgs), Universidade do Sagrado Coração, 2002

Os Templários - Piers Paul Read, Imago, 2000

O Livro de Ouro dos Papas - Paul Johnson, Ediouro, 1998


A invasão bárbara
Foi um dia de terror. Em 15 de julho de 1099, milhares de guerreiros loiros entraram em Jerusalém matando adultos, velhos e crianças, estuprando as mulheres e saqueando mesquitas e casas. As ruas se transformaram numa imensa poça de sangue. Os poucos sobreviventes tiveram de enterrar os parentes rapidamente antes que eles próprios fossem presos e vendidos como escravos. Dois dias depois, não havia sequer um muçulmano em Jerusalém. Tampouco havia judeus. Nas primeiras horas da batalha, muitos deles participaram da defesa do seu bairro, a Juderia. Mas, quando os cavaleiros invadiram as ruas, os judeus entraram em pânico. A comunidade inteira, repetindo um gesto ancestral, reuniu-se na sinagoga para orar. Os invasores bloquearam as saídas, jogaram lenha e atearam fogo à sinagoga. Os judeus que não morreram queimados foram assassinados na rua.

A cena é narrada em As Cruzadas Vistas pelos Árabes, do libanês radicado na França Amin Maalouf. Seu livro é uma tentativa de contar as cruzadas do ponto de vista de quem estava do lado de lá. Para os cronistas muçulmanos, na verdade, não existiram cruzadas. As investidas cristãs em seus territórios ficariam conhecidas como as invasões dos francos (porque a maioria dos cruzados falava o francês), um período de terror e brutalidade na história do Islã.

Lá vêm eles

A primeira investida dos francos, ocorrida em 1096, três anos antes do terrível ataque a Jerusalém, não chegou a assustar o sultão turco Kilij Arslan, que comandava os territórios do atual Afeganistão até o que viria a se chamar, séculos depois, de Turquia. Liderado por um tal de Pedro, o Eremita, o grupo que se aproximava de Constantinopla com a ameaça de exterminar todos os muçulmanos da região mais parecia um bando de mendigos maltrapilhos. Entre os guerreiros, havia uma multidão de mulheres, velhos e crianças – um inimigo muito menos ameaçador do que os cavaleiros mercenários que o sultão estava acostumado a enfrentar.

Durante um mês, mais ou menos, tudo o que os cavaleiros turcos fizeram foi observar a movimentação dos invasores, que se ocupavam apenas de saquear as regiões próximas do acampamento onde foram alojados. Quando parte dos europeus resolveu partir em direção às muralhas de Nicéia, cidade dominada pelos muçulmanos, uma primeira patrulha de soldados do sultão foi enviada, sem sucesso, para barrá-los. Animado pela primeira vitória, o exército do Eremita continuou o ataque a Nicéia, tomou uma fortaleza da região e comemorou se embriagando, sem saber que estava caindo numa emboscada. O sultão mandou seus cavaleiros cercarem a fortaleza e cortarem os canais que levavam àgua aos invasores. Foi só esperar que a sede se encarregasse de aniquilá-los e derrotá-los, o que levou cerca de uma semana.

Quanto ao restante dos cruzados maltrapilhos, foi ainda mais fácil exterminá-los. Tão logo os francos tentaram uma ofensiva, marchando lentamente e levantando uma nuvem de poeira, foram recebidos por um ataque de flechas. A maioria morreu ali mesmo, já que não dispunha de nenhuma proteção. Os que sobreviveram fugiram em pânico. O sultão, que havia ouvido histórias temíveis sobre os francos, respirou aliviado. Mal imaginava ele que aquela era apenas a primeira invasão e que cavaleiros bem mais preparados ainda estavam por vir.

Ataque surpresa

Em meados de 1097, um ano depois da vitória sobre os homens do Eremita, os muçulmanos não estavam lá muito preocupados com a notícia da chegada de novos invasores. Mas a segunda leva de cavaleiros francos que marchava em direção aos seus territórios em nada se parecia com aqueles maltrapilhos ingênuos e despreparados. Bem protegidos com armaduras e escudos, os cavaleiros que agora chegavam não seriam presa fácil para as flechas lançadas pelos arqueiros turcos. Quando os muçulmanos se deram conta dessa diferença, já era tarde demais.

Em poucos dias, os cruzados invadiram a cidade de Nicéia e continuaram marchando como um verdadeiro furacão. Os exércitos turcos mal acabavam de lutar contra uma leva de invasores e, pronto, chegava um novo contingente ainda mais numeroso. Em pânico, a população de cidades como Antióquia avistava desesperada a chegada daqueles cavaleiros. Não havia nada a fazer. Alguns muçulmanos acreditavam até que se tratava do fim do mundo. Relatos do período diziam que o final dos tempos seria precedido pelo nascer de um gigantesco sol negro, vindo do Oeste, acompanhado de hordas de bárbaros. Se o sol negro ainda não havia aparecido, os bárbaros, ao menos, já davam as caras.

A nova ofensiva, que culminou com a brutal invasão de Jerusalém, em julho de 1099, alteraria para sempre a visão que o Oriente tinha do Ocidente. Os saques, estupros e assassinatos de crianças não eram nada condizentes com o tratamento que os próprios mulçumanos sempre deram aos cristãos e judeus que viviam em seus territórios. Quando eles chegaram a Jerusalém, no século 7, fizeram questão de preservar as igrejas cristãs e sinagogas judaicas. O acordo era claro: desde que esses povos não insultassem o profeta e não deixassem de pagar seus impostos, eles sempre teriam a liberdade para viver de acordo com suas crenças e suas próprias leis. Os poucos casos de governos hostis aos judeus e cristãos não passavam de exceções em longos períodos de convivência pacífica.

Com a queda de Jerusalém e a derrota para os francos, os mulçumanos aprenderam uma difícil lição: enquanto estivessem desunidos, o futuro do Islã estaria comprometido. Para que essa união fosse possível, contudo, seria necessário o surgimento de um líder respeitado pela maioria dos muçulmanos. Ele apareceu quase um século depois.

A reação islâmica

O homem que se transformaria no herói da reação muçulmana era um soldado curdo chamado Salah al-Din, conhecido no Ocidente como Saladino. Até hoje seu nome é venerado como símbolo da resistência contra o Ocidente – o próprio Saddam Hussein, conhecido pelas atrocidades cometidas contra os curdos de seu país, citou várias vezes o nome de Saladino aos iraquianos nos dias que antecederam a invasão americana.

Décadas após a fundação dos reinos cristãos no Oriente, os muçulmanos ainda não haviam conseguido retomar a maioria dos territórios perdidos. As disputas entre os diversos califas e sultões tampouco ajudavam na reconquista. Em 1174, ao tornar-se o soberano mais importante do mundo muçulmano, Saladino já pensava em como unir os estados islâmicos para uma contra-ofensiva.

A chave do sucesso de Saladino era um misto de profunda convicção religiosa e pragmatismo militar. Para derrotar os cruzados, ele pregava a união de todos os muçulmanos em torno da jihad, a guerra santa do Islã. Relatos contam que ele costumava reclamar que os muçulmanos não lutavam com o mesmo fervor dos cristãos. Após organizar os exércitos e treinar novas técnicas de combate, ele conseguiria o que muitos consideravam impossível: em 1187, reconquistou a cidade sagrada de Jerusalém, que havia 88 anos estava nas mãos dos cristãos. Após entrarem na cidade, muitos muçulmanos quiseram destruir a Igreja do Santo Sepulcro e matar todos os cristãos por vingança pelas atrocidades cometidas na invasão dos cruzados. Saladino, porém, fez questão de conter os ânimos dos seus soldados, preservando tanto a igreja quanto a vida dos cristãos.

Como já era esperado, a queda de Jerusalém foi um choque para o Ocidente. A cada derrota no front cristão, novas cruzadas eram enviadas ao Oriente, arrastando a batalha por décadas. O último bastião cristão na região só seria derrubado mais de um século após a tomada de Jerusalém por Saladino. O capítulo das cruzadas medievais terminaria apenas em 1291, quando os muçulmanos expulsaram os cristãos do Reino do Acre, ao norte de Jerusalém.

O legado da briga

Durante muito tempo, uma pergunta intrigou historiadores tanto do Ocidente quanto do Oriente: se os muçulmanos saíram vitoriosos das cruzadas, por que os estados islâmicos terminaram sendo ofuscados, no séculos seguintes, pela ascensão de potências européias?

Segundo a maioria dos pesquisadores, a ascensão européia tem menos ligação com as cruzadas e mais a ver com a debilidade dos governos muçulmanos da época. Essa fraqueza estava ligada a vários fatores, entre eles a falta de identidade árabe (desde o século 9, a maioria dos dirigentes muçulmanos era estrangeira, como os turcos seljúcidas) e a incapacidade de criar instituições estáveis – como os Estados em formação na Europa Ocidental.

O fato é que as cruzadas foram um marco nas relações entre ocidentais e orientais. Naquele momento, os “invasores bárbaros” eram os ocidentais cristãos e a grande potência era a muçulmana. Sobrou daquela guerra um ressentimento amargo, que extravasa de tempos em tempos, como tem acontecido com freqüência desde o ataque terrorista de 2001. Não são poucos os muçulmanos que atribuem o atraso econômico de seus países àquela agressão quase um milênio atrás – e que querem vingança por isso.

A vitória contra os francos e a ascensão de Saladino reforçaram no imaginário muçulmano a idéia de que é possível vencer o inimigo com altivez e senso de justiça. Além disso, as lutas contra os francos ensinaram também que os muçulmanos são mais fortes quando estão unidos – tese que até hoje permanece como uma utopia no Oriente. Mas até que ponto as cruzadas devem ser lembradas em tempos de guerra no Iraque?

“Não há por que ficar buscando na história motivos para reacender animosidades entre os dois povos”, diz o historiador Demant. “As cruzadas marcaram a história por apenas dois séculos. Já a convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos sobrevive há mais de mil anos”.

Para saber mais

Na livraria:

As Cruzadas Vistas pelos Árabes - Amin Malalouf, Brasiliense, 1998

Islamic World, Ilustrated History - Francis Robinson, Cambridge University Press, Reino Unido, 2002

Uma História dos Povos Árabes - Albert Hourani, Companhia das Letras, 1991

Islã (Coleção Para Saber Mais) - Rodrigo Cavalcante, Superinteressante, 2003

Revista Superinteressante

História do papai noel

São Nicolau tem história de devoção e religiosidade.
Figura do Papai Noel com roupas vermelhas se popularizou no século XX.



O Papai Noel como conhecemos, de roupa vermelha, sacola nas costas e barba branca, é, na verdade, uma modificação moderna da figura do 'bom velhinho' original. Inspirador do Papai Noel, São Nicolau (Saint Nicholas, em inglês) era um homem simples, dedicado à religião, que nasceu em 280, na cidade de Patara, na Ásia menor (hoje Turquia).


Mitos e verdades se misturam na história desse bispo que se tornou santo. Quando seus pais morreram, ele distribuiu a herança entre os pobres, o que o tornou conhecido na região.

Também ficou famoso por ter ajudado a família de um nobre que entrou em falência. Seus credores queriam, além de todos seus bens, a mão das três filhas em casamento. Sabendo que elas sofreriam agressões e escravidão, o nobre entrou em desespero, pois não tinha dinheiro para o dote que faria suas filhas se casarem mais cedo. Conhecendo o dilema do nobre, Nicolau jogou um saco de ouro em seu quintal. E fez isso com as duas outras filhas. Descoberto, o bispo fez o nobre jurar que não revelaria seu nome até sua morte. Daí partiu a tradição de distribuir presentes anônimos.

As histórias da vida de Nicolau se espalharam pela Grécia e pelo Império Romano. Muitas lendas surgiram, mas foi a distribuição de presentes que ficou conhecida no mês sua morte, dezembro. Em 988, Vladimir, o Grande, príncipe da Rússia, se converteu ao cristianismo e viajou a Constantinopla para ser batizado. Lá ele ouviu a história de São Nicolau e ficou tão impressionado que o nomeou padroeiro de toda a Rússia. As tradições e lendas começaram a se relacionar com histórias bíblicas.


Na América

Após a colonização da América, os europeus que lá foram morar levaram suas crenças com eles. Na Pensilvânia, havia muitas referências a São Nicolau. Em 1809, um livro infantil trouxe as referências do bispo turco para os Estados Unidos. Em "Knickerbocker's History of New York", o escritor Washington Irving se baseou em São Nicolau para criar um personagem que entrava nas casas pela chaminé.

Na década de 1860, o ilustrador Thomas Nast criou imagens de São Nicolau (que nessa época já tinha o apelido de Santa Claus) para a edição de Natal da revista Harper's. No século XX, a Coca Cola fez uma série de comerciais com a figura do papai noel. A partir daí, a imagem do bom velhinho se popularizou e virou sinônimo da data festiva católica.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A formação das monarquias centralizadas

A formação das monarquias centralizadas
Origem:
Comerciantes = Estado que se impusesse ao poder local
+
Rei = reforço de sua autoridade para subordinar nobreza e Igreja
Espanha
► Reconquista cristã ( séc. XI) = Leão, Navarra, Castela e Aragão
► 1479 = Castela + Aragão = reis católicos = início da centralização
► 1492 = conquista de Granada e expulsão dos árabes ( mouros)
► judeus banidos(1492) + perseguições aos marranos (judeus mal convertidos) e mouriscos(muçulmanos mal convertidos) = “limpieza de sangre” = enfraquecimento na transição para o capitalismo.
Portugal
► Origem – Afonso VI rei de Leão doou terras a Henrique de Borgonha (condado Portucalense) + casamento com Dona Teresa.
► D. Afonso Henriques = Condado Portucalense = dinastia Borgonha = reconquista cristã com doação de terras aos nobres/sem hereditariedade = hegemonia real
► Desenvolvimento e crescimento mercantil = escala da rota marítima norte /sul
► 1383 – 1385 disputa pelo trono = Revolução de Avis = dinastia de Avis(D. João I)
França
► Séc XII = dinastia Capetíngia/FelipeII = poderoso exército + aliança com a burguesia
► Luís IX ( séc. XIII morreu na 8ª. Cruzada=S. Luís) continuou a centralização
► Filipe IV (séc. XIV) – criou a assembléia dos Estados Gerais sem os pobres=caráter consultivo/ taxou a Igreja = cativeiro de Avignon (1309-1378)=cisma do Ocidente
► Guerra dos Cem Anos(1337-1453) = necessidade da nobreza + insatisfação da burguesia (perdas na guerra) + fome + peste negra = jacqueries
► 1453 = organização e consolidação da monarquia.
Inglaterra
► 1066 = invasão normanda fortalece o feudalismo
► 1154=dinastia Plantageneta ( Henrique II séc.XII) = common law
► Ricardo Coração de Leão(séc.XII) = 3ª.cruzada
► João Sem-Terra = cobrança elevada de impostos = Carta Magna = poder real limitado
► Guerra dos Cem Anos(1337-1453) + peste negra + rebeliões camponesas = dificuldades gerais
► Guerra dos Cem Anos + Guerra das Duas Rosas = enfraquecimento da nobreza