sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A guerra entre os portugueses e os tapuias

RHBN 01/07/2009
Quem tem medo dos bárbaros?
Na tentativa de povoar o sertão, os portugueses meteram-se numa longa guerra contra um temível inimigo: os índios tapuias
Soraya Geronazzo

Se existe uma guerra justa, há de ser aquela travada contra o próprio demônio. E era uma guerra assim que os portugueses acreditavam estar lutando nos sertões brasileiros.

O demônio, no caso, eram os índios tapuias. Divididos em várias etnias, espalhados pelo Nordeste da Colônia, numa enorme faixa de terra que ia da Bahia ao Ceará, eles ganharam a fama de bárbaros já no momento em que foram assim batizados. “Tapuias”, para os tupis, eram todos os não tupis. Diferiam destes não só pela língua, mas por habitarem o sertão, o interior. Como os colonizadores se instalaram primeiro no litoral, foi com os tupis que se comunicaram e se misturaram antes. Por mais que também se dividissem em vários povos, alguns deles agressivos, os tupis eram os índios “conhecidos”. Já os tapuias eram “os outros”. E quando chegou a hora de enfrentá-los, sua fama se confirmou.

Em 1708, o governador de Pernambuco, Manoel de Sousa Tavares, teve mais uma prova de como era terrível guerrear contra eles. Em carta ao Conselho Ultramarino – órgão do governo responsável pelas colônias portuguesas –, relatou que os tapuias, não satisfeitos em destruir fazendas e matar seus moradores, invadir igrejas e derrubar as imagens sacras, eram capazes de atos cruéis e desumanos, como fizeram com o padre Amaro Barbosa, de quem arrancaram o coração!

Desde o século anterior, o reino investia na ocupação do interior brasileiro. A região passou a despertar interesse depois do fim da União Ibérica (1640) e da expulsão dos holandeses do Nordeste (1654). Ao conquistar autonomia em relação à Espanha e ver-se livre dos invasores na Colônia, Portugal voltou-se para uma área tremendamente promissora: o sertão nordestino, que, com a abundância de terras e a facilidade de adquiri-las, passou a ser ocupado, de maneira intensiva, principalmente pelos “curraleiros”, criadores de gado. A intenção era resolver a questão do abastecimento interno (com o fornecimento de carne), evitar novos conflitos com invasores estrangeiros e impor uma ordenada distribuição de terras.

O problema é que, à medida que os colonos avançavam, passaram a enfrentar a renhida resistência dos grupos indígenas. Começou, então, uma série de conflitos armados que duraria mais de meio século e ficou conhecida como Guerra dos Bárbaros.

Tratava-se de uma “guerra justa”. Este conceito, baseado no direito de guerra medieval, já fora adotado pelos portugueses antes da descoberta da América, na época das lutas contra os muçulmanos. No caso brasileiro, o que justificou essa interpretação foi a hostilidade dos índios, que reagiam com violência ao avanço da colonização. Seus levantes eram considerados atos de selvageria, demonstrando sua natureza belicosa. Uma vez decretada a guerra justa, os colonos passavam a ter o direito de empreender a luta armada contra todas as nações indígenas que se recusassem à conversão, impedissem a propagação da fé católica ou quebrassem pactos de paz feitos com os portugueses.

No caso dos tapuias, havia um agravante: muitos deles adotavam a abominável prática do canibalismo. Suas almas precisavam ser salvas. Uma vez investidos como guerreiros, os colonizadores estariam a serviço de Deus, propagando a fé e defendendo a paz e a segurança daqueles que punham em prática o rendimento da terra, e, com isso, a civilização.

A princípio, os índios levaram a melhor. Eram mais numerosos e conheciam como ninguém os áridos solos do sertão. Além disso, adotavam táticas estranhas aos militares europeus, deixando as autoridades completamente aturdidas. “A guerra destes Bárbaros é irregular e diversa das mais nações porque não formam exércitos nem apresentam batalhas na campanha, antes são de salto as suas investidas, ora em uma, ora em outra parte, já juntos, já divididos”, descreveu em 1688 o arcebispo governador do Brasil, frei Manuel da Ressurreição.

Para exaurir as tropas dos brancos, costumavam percorrer caminhos e lugares em que era difícil a locomoção, onde geralmente havia escassez de água e de alimentos. Ao contrário dos portugueses, eles não precisavam carregar pesados mantimentos, já que estavam habituados a se alimentar de frutos, mel, caça e pesca. “Não foi possível alcançá-los por se espalharem por um monte de penedia [rochedos] com que se perdeu a trilha e por muitos dias não houve notícia deles”, queixou-se o capitão Afonso de Albertim, da Ribeira do Rio Açu, na capitania do Rio Grande.

Nem mesmo os tradicionais códigos de guerra funcionavam com os “selvagens”. Um artifício muito usado por eles era, no momento em que se sentiam encurralados, procurar abrigo e pedir um acordo de paz às autoridades locais – para depois voltarem a fugir para o sertão. Isso serviu de lição para as autoridades: desconfie da paz estabelecida com os tapuias.

Investidas missionárias também surtiam pouco efeito. Os índios tentavam impedir a aproximação dos jesuítas até junto às outras nações. Impossibilitavam qualquer tentativa de manter nativos submetidos ao controle colonial. Na hora de guerrear, era comum ver povos distintos se juntando e combatendo lado a lado contra os brancos.

Essas estratégias eram consideradas “ilegítimas” pelos colonizadores, mas estava óbvio que a guerra dos sertões exigia mudanças na estratégia portuguesa. E a solução foi adotar algumas das táticas dos “bárbaros”. As campanhas tinham que se basear em emboscadas realizadas por pequenos grupos de homens com extrema mobilidade e grande capacidade de ataques de surpresa. Para isso, passaram a contar com a ajuda de sertanistas mercenários vindos da capitania de São Vicente (os chamados “paulistas”).

Os portugueses copiavam os índios, mas estes também tinham herdado técnicas militares européias, do tempo em que lutaram em ambos os lados durante as invasões holandesas. Aprenderam a criar e usar cavalos e a manejar armas de fogo. Muitas nações valiam-se dos contatos com piratas estrangeiros para obter armas e munição. Em julho de 1694, Manuel Álvares de Morais Navarro, capitão de uma tropa de paulistas, escreveu carta ao rei afirmando que os tapuias “faziam pazes com qualquer navio estrangeiro que viera àquela costa, pois tanto suspiram pelos holandeses, e é certo ser qualquer inimigo lhes desse armas de fogo, só eles bastavam para nos conquistarem por terra pois são tantos como as folhas, e no valor não lhes excedemos mais que na desigualdade das armas”.

Os estragos causados pelos levantes indígenas prejudicaram a exploração das terras. A região, que inicialmente se apresentou como grande possibilidade para a recuperação da economia do Estado português, tornou-se fonte de despesas para a Fazenda Real, ameaçando os planos que a Coroa tinha para o desenvolvimento de algumas capitanias, como a do Rio Grande (atual Rio Grande do Norte), e abrindo brechas na defesa dos territórios das vizinhas Ceará, Piauí, Paraíba e Pernambuco.

A vantagem dos nativos criou um clima de pânico geral nos colonos, que ameaçavam abandonar a terra. O comportamento “selvagem” dos inimigos agravava a sensação de medo. “Suas avançadas são de súbito, dando urros que fazem tremer a terra para meterem terror e espanto e logo se espalham e se metem detrás das árvores, fazendo momos [gestos grotescos] como bugios [macacos], que sucede às vezes meterem-lhe duas e três armas e rara vez se acerta o tiro pelo jeito que fazem com o corpo”, relatou Gregório Varela de Berredo Pereira, que era capitão de infantaria, guarda da residência do governador de Pernambuco.

Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele. A velha lição foi fundamental para os portugueses mudarem o rumo da guerra. Atrair tapuias para lutar a seu lado era a única forma de conseguirem equilíbrio no número de combatentes, sem falar em seu talento para as táticas de guerrilha na mata e em sua aptidão para a sobrevivência naquele meio inóspito.

A proposta também tinha vantagens para os tapuias. Aliados aos luso-brasileiros, podiam combater seus inimigos nas lutas intertribais. Interessavam-se também pela possibilidade de receberem terras na forma de sesmaria, pois no fim dos conflitos era comum a distribuição de mercês desse tipo. Muitos índios tornavam-se, assim, vassalos da Coroa portuguesa.

Em 1690, frei Manuel da Ressurreição, que ocupava interinamente o governo-geral do Brasil, decidiu adotar mudanças radicais na estratégia de guerra, para finalmente dar cabo dos tapuias nas capitanias do Norte. As ações ficaram a cargo de um único capitão, Matias Cardoso de Almeida, que recebeu patente de mestre de campo e governador da guerra. A ordem era degolar, ou no mínimo escravizar, quantos tapuias fosse possível, destruindo suas aldeias.

Ainda levaria algum tempo, mas os rumos da guerra estavam definidos. Depois de uma das mais prolongadas resistências indígenas do período colonial, aqueles povos seriam completamente exterminados. Seja pela morte durante o conflito, seja pela escravidão ou pela completa transformação dos tapuias em caboclos. Os que restaram foram paulatinamente migrando para a Região Norte do Brasil.

Para os soldados da guerra justa, o demônio foi derrotado. Mas para os tapuias, o inferno eram os outros.

Soraya Geronazzo Araújo é professora de História Moderna e do Brasil na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) e autora da dissertação “O Muro do Demônio: economia e cultura na Guerra dos Bárbaros no nordeste colonial do Brasil – séculos XVII e XVIII” (UFC, 2007).

Saiba Mais - Bibliografia:

LOPES, Fátima Martins. Missões religiosas: índios, colonos e missionários na colonização da Capitania do Rio Grande. Mossoró: FVR/IHGRN, 2003.

PIRES, Maria Idalina da Cruz. Guerra dos Bárbaros: resistência indígena e conflito no Nordeste Colonial. Recife: Fundap/CEP, 1990.

POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e “Tapuia” no Brasil Colonial. Bauru: Edusc, 2003.

PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros: povos indígenas e a colonização do sertão nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: Hucitec/ Editora da USP/ Fapesp, 2000 (Estudos Históricos, 44).

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